3 de junho de 2009

Nei Lisboa caseiro e virtual

As letras escritas em guardanapos de bar fazem parte do passado. Nei Lisboa agora tem 50 anos de vida, uma filha de seis e é um homem dedicado ao lar. O momento vivido por ele transparece com nitidez em Translucidação (2006), último trabalho do músico que apresenta-se no dia 13 em Bom Retiro do Sul. “Me tornei pai tardiamente, com 43 anos, de uma linda garotinha, então tudo se voltou mais para dentro de casa”, revela em entrevista de 22 minutos por telefone a O Informativo do Vale. Eis a íntegra:

Fala um pouco da turnê atual, são 30 anos de carreira, qual o formato do show, repertório?
O formato é um trio que sou eu violão e voz, Paulinho Supekovia na guitarra e vocais, e Luiz Mauro Filho nos teclados e vocais. O repertório abrange a carreira toda, mais calcado nos últimos discos, mas também músicas das antigas.

Translucidação teve a divulgação que merecia?
Não é questão de merecimento, ele é um disco um pouco mais difícil. É um disco muito autoral, não é um disco voltado ao mercado. Se propunha desde o início a uma coisa mais fechada, por ser independente também, né. É um disco em que está se perguntando muito sobre a própria indústria e a distribuição de música por este momento confuso que a gente vive e já vivia quando o disco foi feito. O CD, em si, como suporte, está sendo questionado. Eu sei que o disco já teria uma barreira comercial tradicional. No entanto ele está tendo um prolongamento por causa da internet. Está disponível para download no site e tem gente que está descobrindo o disco agora.

Teu último trabalho tem muito de MPB, isto é resultado do que?
É verdade, este CD em termos de composição foi um momento em que eu brinquei bastante com computador, um teclado ligado no computador, um pequeno estudiozinho digital em casa. Bom, escutar MPB eu sempre escutei, não sei porque as vezes essa vertente vem mais ou menos. Acho que fiz uma coisa um pouquinho mais fechada em mim mesmo, menos pra fora. O conceito do disco já vinha por aí. Ficou ao natural, uma coisa menos pop rock.

Tu te sentes mais livre para compor hoje?
Compor pra mim nunca foi uma liberdade. Depois de 30 anos a gente encara mesmo como uma certa obrigação profissional também. Mas além deste fator, para mim é sempre um parto, uma coisa muito sofrida buscar o que dizer, como dizer. Nunca tive muito a sensação de liberdade. E também nunca tive uma sensação de aprisionamento caricato, de a gravadora te impondo coisas, nunca foi também isto. É mais uma auto-censura ou um auto-direcionamento que a gente se coloca dependendo de cada posição que tu estás. Se estiver voltado pra uma grande produção, com um monte de gente envolvida, etc e tal, automaticamente tu já pensas em compor coisas que tenham a ver com aquela situação. Eu agora vivi esta chegada aos 50, me tornei pai tardiamente, com 43 anos, de uma linda garotinha que hoje está com seis anos, então tudo também se voltou mais para dentro de casa. Isto refletiu também no que eu fiz neste disco.

O iPod e a música virtual te incomodam?
Não, pelo contrário. Isto é uma coisa que me fascina. Investi muito o meu tempo nisto. A Webvitrola tem sido o meu grande brinquedo nos últimos dois anos. É uma forma de as pessoas terem acesso a todos os discos, sem estar assaltando nenhuma lei, sem tomar posse do arquivo. Me mandam e-mail perguntando “onde eu compro o Hi-Fi?”. Eu digo: “eu não sei. Compra num sebo”. Então a vitrola veio para isto. Agora está mais requintado, tem até transmissão ao vivo. O MP3 foi uma grata solução para isto.

Quais teus projetos para o futuro, algum álbum novo em mente?
Aí que tá. Álbum na verdade não sei se é uma coisa que vale hoje em dia a gente investir. Estou tentando pensar de outras formas. A internet serve para, por exemplo, lançar músicas em separado. Agora, reunir uma dúzia de canções e lançar um CD não é coisa que esteja nos planos. Estou começando a compor mas já pensando em distribuir desta forma, digital, pela internet. E pode começar com duas ou três músicas, não um álbum inteiro.

Tem um DVD nos planos, não é?
É, estou comemorando estes 50 anos de idade e 30 anos de carreira, então até o final do ano vou registrar as imagens, na verdade ainda me perguntando em que suporte isto vá circular. Talvez um DVD que está mais na pauta, mas por que não pensar em outras coisas?

Qual música não pode faltar no show, senão a galera cobra?
Uma meia dúzia. Pra Te Lembrar nos últimos anos é a mais pedida, é aquela que o Caetano Veloso gravou pro filme do Jorge Furtado (Meu Tio Matou um Cara). Telhados de Paris é outra, Baladas, Verão em Calcutá, Romance, Faxineira também.

Tem alguma que tu não tocas mais?
Não. Durante muito tempo não toquei Faxineira. Por certo desgosto de uma Dona Maria minha que tinha falecido. Mas depois eu voltei a tocar e tenho tocado sempre. O bom com este trio é que a gente ataca qualquer uma, já temos um repertório vasto das minhas músicas ensaiadas.

Vou te fazer a pergunta que está no teu site: qual projeto é mais importante pro RS (as opções são impeachment da governadora, um presídio tradicionalista e mais pontes para os sem-teto)?
(Risos) Foi uma brincadeira minha ontem e não sei se não me arrependo ainda... Eu tenho posição política e partidária há muitos anos e acho que é a primeira. A gente perdeu muito com os últimos governos que elegemos no Estado. É uma pena, porque foi uma década em que o país, apesar da crise que agora surgiu, teve um crescimento em que poderíamos ter nos sintonizado melhor.

O que te deixa perplexo, indignado em nosso Estado?
Corrupção já não me deixa perplexo, a gente já se habituou a isto. Meu estado não é de perplexidade. É de lamentar mesmo. Um desgosto. Um tempo subutilizado. Uma década que a gente podia ter aproveitado melhor e que vai ter que correr atrás agora pra recuperar. Nada que o tempo também não conserte.

6 comentários:

Lizandra Rodrigues disse...

massa o blog..
bonito por aqui ^^

Angel disse...

Muito interessante a entrevista.Gostei do blog.

Se tiver tempinho, depois passa lá no meu:
http://infonews2012.blogspot.com

Henrique disse...

Legal =] Bom trabalho.

Eduardo disse...

Parabéns pela postagem. É uma entrevista de um valor peculiar, dada a pouquissíma exposição do Nei na mídia. Parabéns!

henrique disse...

Se vc eh a favor da desvalorização da cultura gaúcha , criticando quem com dificuldade consegue sustentar esta , pega teu violão e vai tocar p/paulista e carioca que nem ao menos sabem cantar o hino do seu estado.São pensamentos como o seu Nei Lisboa que faz com que as riquezas culturais desapareçam.

henrique disse...

Se vc eh a favor da desvalorização da cultura gaúcha , criticando quem com dificuldade consegue sustentar esta , pega teu violão e vai tocar p/paulista e carioca que nem ao menos sabem cantar o hino do seu estado.São pensamentos como o seu Nei Lisboa que faz com que as riquezas culturais desapareçam.