11 de outubro de 2008

Cem anos do samba

Em uma das cenas mais tocantes já produzidas por um documentário, Cartola está sentado ao lado do pai – com quem não conversava há mais de 40 anos. Como se fosse um conhecido casual, Sebastião de Oliveira pede ao filho que cante um samba. Cartola, dedilhando o violão, entoa vagarosamente os versos de O Mundo é um Moinho, a música que compôs quando a filha saiu de casa.

A cena ilustra a essência do maior sambista da história. Afinal, a família, a favela, os amores não correspondidos, a boemia, a vida de garçom, porteiro, lavador de carros era a inspiração para o seu samba triste e cadenciado – embora mais triste tenha ficado o samba após a sua morte. Até hoje, no dia em que estaria completando 100 anos, Cartola segue reverenciado em diversas regravações que já incluíram nomes como Beth Carvalho, Nara Leão e Cazuza, entre outros. O Sol Nascerá, por exemplo, ganhou mais de 600 versões.

Batizado equivocadamente, graças a um erro do escrivão, Angenor de Oliveira nasceu no bairro do Catete, no Rio de Janeiro, no dia 11 de outubro de 1908. Tinha oito anos quando sua família se mudou para Laranjeiras e 11 quando passou a viver no morro da Mangueira, de onde não mais se afastaria. Desde menino participou das festas de rua, tocando cavaquinho no rancho Arrepiados e nos desfiles do Dia de Reis. Passando por diversas escolas, conseguiu terminar o curso primário, mas aos 15 anos, depois da morte da mãe, deixou a família e a escola, iniciando sua vida de boêmio.

Em 1932, fundou a Estação Primeira de Mangueira. Seu primeiro LP, no entanto, só seria lançado em 1974, meses antes de o compositor completar 66 anos de idade. Gravaria mais três discos até falecer, em 1980, num domingo de primavera – como hoje. Pouco, mas suficiente para torná-lo o maior nome do samba. A melhor definição dos últimos 100 anos é a frase de um velho amigo, Nélson Sargento: “Cartola não existiu, foi um sonho que a gente teve”.

Cartola e seu pai - O Mundo é um Moinho

8 comentários:

Quer uma xícara de chá? disse...

Nossa, que emocionante.
Gosto de samba de raiz, maracatum... em festivais. hehehehe
Danço muito, sambo muito. Mas em casa não costumo ouvir.

Danilo Cruz disse...

Não gosto muito de samba, mas o post é bem interessante.

Alexandre Silva disse...

Apesar de eu não ser um entusiasta de samba, Cartola foi mais um daqueles que recebem o título de gênio. Claro, pelos seus admiradores e especialistas em samba. Sem dúvida merece todas as honras e o respeito até por quem não gosta. Reconhecemos o talento de Cartola, que no seu quesito sempre foi nota 10.
E ainda dxou um patrimônio cultural do RJ e do Brasil q é a Estação Primeira de Mangueira...
Deve ser lembrado e respeitado...
Ótimo post
Abraço
http://falandoprasparedes.blogspot.com

conceicaocampello disse...

Gostei muito do texto.
Amo Cartola...a poesia das suas letras.
Tenho um cd dele de um show na TV Cultura em que ele responde a uma entrevista e canta...é show!!!
Abraço,
Conça

Julio disse...

Otimo texto!!!
O poeta está vivo!!!

Roberto Silva disse...

Grande pedida o Cartola é um artista que não vivia em função de grana, vivia o sentimento ó que resultava em grandes obras, lembro da Beth carvalho dizendo que foi em uma cazinha humilde no morro carioca onde vivia cartola para buscar composições e lá Cartola lhe deu a letra de As rosas não Falan e ela gravou e foi fácil se tornar um clássico.
Isto é Brasil, Parabéns pela iniciativa Danton.

Dany disse...

Confesso que não conheço as músicas de Cartola, apesar de ouvir falar muito dele... Muito interessante seu texto, uma forma de chamar nossa atenção para pessoas tão ilustres, as quais nem todo mundo conhece...

Um ótimo domingo para você...

Abraços,

Dany Z.

Schali disse...

Samba não é muito meu estilo, na verdade quase nem um pouco. Mas, o jeito que você descreve bem nos deixa com vontade de ouvir.
O blog está com uma cara nova e devo dizer que gostei mto!
Bjo!