5 de agosto de 2008

Dica: filho obscuro do gênio

O gosto pela música do Tom Zé nasceu com uma reedição do disco de estréia, o álbum de 1968, que ganhei no natal de não sei qual ano. A curiosidade, no entanto, sempre foi grande com relação ao famoso disco que trazia um ânus na capa (pelo menos era o que eu pensava), em formato de olho. Decidi então ir atrás do tal disco, Todos os Olhos, lançado em 1973. Encontrei-o numa reedição “dois em um” junto com um outro disco do qual eu não tinha ouvido falar, e por isso não tinha grandes expectativas. Mal sabia que estava subestimando uma grande obra.

Antes de inventar instrumentos e entrar de cara no experimentalismo, Tom Zé compôs sambas belíssimos ao violão. A romântica Happy End, que abre o disco, é um deleite. É prima-irmã de Se o Caso é Chorar, no mesmo estilo, um formato mais rústico (mas não menos empolgante) para quem está acostumado com as esquisitices inventivas do baiano. Ambas as músicas parecem lembrar um samba antigo, daqueles que talvez o artista ouvia ainda quando criança, na cidade de Irará, interior da Bahia. Até a letra remete à fossa dos cantores de antigamente. “Vestir toda minha dor no seu traje mais azul, restando aos meus olhos o dilema de rir ou chorar”, canta ele em Se o Caso é Chorar. Esta última, aliás, acabou virando a faixa-título quando o álbum foi rebatizado, em 1984, após ter sido relançado em LP.

Não quer dizer que, fazendo samba de raiz, Tom Zé tenha se furtado de inventar. No mesmo disco, o artista dá uma pista sobre a variedade rítmica e principalmente o experimentalismo que viria a permear sua obra até hoje. Dor e Dor e A Briga do Edifício Itália e do Hilton Hotel fazem parte deste time, quando a fossa dá lugar ao humor e à irreverência, como não poderia deixar de ser. Mas aí vem Senhor Cidadão, a sexta faixa, para confundir a cabeça do ouvinte. Citando versos desconexos do poema Cidade, de Augusto dos Anjos, Tom Zé diz coisas como: “senhor cidadão, eu e você temos coisas até parecidas, por exemplo nossos dentes, da mesma cor do mesmo barro, enquanto os meus guardam sorrisos, os teus não sabem senão morder”. E cada verso é repetido desordenadamente por um coral, como num transe. Ou numa procissão.

Terceiro disco da carreira do baiano, Se o Caso é Chorar está longe do tropicalismo da ensolarada estréia, repleta de marchinhas com referências psicodélicas. Também está longe (vá lá...) de outra obra-prima, o álbum Estudando o Samba, de 1976, cultuadíssimo no exterior. Mesmo não estando em nenhuma “lista de melhores”, Se o Caso é Chorar é um grande disco.

2 comentários:

Paulo Henrique disse...

Nunca ouvir falar deste homen xD
vou ver se ele canta bem
http://frango-de-bigode.blogspot.com/

Raquel disse...

AÊÊÊÊÊ!!!!!!!!!!!!!!

gostei da critica e vou procurar ouvir álbum!


bjão e mais uma vez, parabéns!