Mostrando postagens classificadas por relevância para a consulta ramalho. Ordenar por data Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens classificadas por relevância para a consulta ramalho. Ordenar por data Mostrar todas as postagens

18 de dezembro de 2008

Bob Dylan de sanfona

A dura sinceridade de Like a Rolling Stone a transformou em uma das canções mais contestadoras de todos os tempos. Após quatro décadas da gravação original, Zé Ramalho traduziu os mesmos versos desoladores que Bob Dylan cantara em 1967. Resultado: a versão chamada Como Uma Pedra Rolar é o destaque de um dos melhores lançamentos deste fim de ano, o álbum do cantor nordestino dedicado a músicas do norte-americano.

O recém-lançado Zé Ramalho Canta Bob Dylan já valeria somente pela faixa acima citada. Mas o autor reservou muito mais. Para quem nasceu em Brejo do Cruz, interior da Paraíba, Jackson do Pandeiro é o Mr. Tambourine Man da clássica canção de Dylan. A citação ao sambista, conterrâneo de Zé, mostra que na linguagem universal da música não há barreiras entre a obra cosmopolita de Dylan e o regionalismo da canção nordestina.

E é trocando a gaita de boca do americano pela sanfona do forró que Zé Ramalho constrói um disco autêntico, à altura de um tributo ao maior poeta do rock. Mesmo quando vai pelo caminho mais simples, o álbum funciona. Negro Amor é uma regravação da já conhecida versão de Caetano Veloso para It’s All Over Now, Baby Blue, enquanto que If Not For You, gravada também por George Harrison, foi registrada em inglês mesmo.

Produzido por Robertinho do Recife e lançado pela EMI, o CD prioriza as canções antigas de Dylan – embora Tá Tudo Mudando seja uma versão para Things Have Changed, que em 2000 rendeu ao compositor um Oscar pela trilha do filme Garotos Incríveis. Tudo bem, as versões são praticamente traduções literais dos originais. Mas se há um compositor com autoridade suficiente para traduzir a obra Dylan, esse alguém é Zé Ramalho.

Faixas:
1 – Medley: Wingwam/Para Dylan (inédita)
2 – O Amanhã é Distante (Tomorrow is a Long Time)
3 – If Not For You
4 – Batendo na Porta do Céu (Versão II) (Knocking on Heaven’s Door)
5 – O Homem Deu Nome a Todos Animais (Man Gave Name to All the Animals)
6 – Tá Tudo Mudando (Things Have Changed)
7 – Como Uma Pedra a Rolar (Like a Rolling Stone)
8 – Negro Amor (It’s All Over Now, Baby Blue)
9 – Não Pense Duas Vezes, Tá Tudo Bem (Don’t Think Twice, It’s All Right)
10 – Rock Feeling Good (Tombstone Blues)
11 – O Vento Vai Responder (Blowin’ in the Wind)
12 – Mr. do Pandeiro (Mr. Tambourine Man)

15 de março de 2010

Música de programa


O blog e o livro de Bruna Surfistinha disseminaram a literatura das prostitutas, embora a prostituição da literatura já tenha sido iniciada há muitos anos. Na música, porém, o espaço ocupado pelas prostitutas precede a vulgarização da arte. Muito antes da Surfistinha ir à luta, Zé Ramalho e Tom Waits já cantavam as agruras de ganhar dinheiro fácil e da vida dura (sem trocadilhos) de quem vende o próprio corpo. Para outros, os cabarés eram apenas diversão, como para Bob Dylan no clássico álbum Highway 61 Revisited. Há ainda aqueles que foram pela primeira vez no bordel, apaixonaram-se, e tentaram a todo custo dar uma nova vida à moça.

Quê importa que seja apenas um simulacro do amor? O importante é que nossos ídolos se lembraram de registrar essas experiências (nem sempre bem sucedidas) em forma de canção.

Juts Like Tom Thumb’s Blues, Bob Dylan – E tudo começa com o mestre. Presente em Highway 61 Revisited, um dos melhores álbuns da história, essa música não é das mais conhecidas, embora seja a preferida de muitos fãs (incluindo o autor deste blog). Dylan apresenta suas garotas com mais precisão do que um catálogo de modelos. E dá uma grande dica para quem, casualmente, encontrar-se perdido na Páscoa de Juarez: “Não se faça de arrogante quando estiver na Rue Morgue Avenue, eles têm mulheres famintas lá e elas farão um estrago com você”.

Roxanne, The Police – Talvez a prostituta mais famosa da música pop. Esse é um dos maiores hits de Sting e companhia. “Eu te amei desde que conheci você (...), eu não dividirei você com outro garoto.” Pobre Sting...

Garoto de Aluguel, Zé Ramalho – Aqui, quem canta é quem vende o corpo. Ou melhor, empresta, como ela(e)s gostam de dizer (e por pouco tempo). Missão fácil para Zé Ramalho, que ao chegar do Norte com uma mão na frente e outra atrás, teve de se virar (e não é no bom sentido) como pôde na cidade grande.

I’m Your Late Night Evening Prostitute, Tom Waits – Mais um que tentou mostrar o outro lado da história. Nessa balada melancólica, o bardo é direto e sem meias palavras: “Tive que estar aqui às 8 e vou ficar até às 2, tentarei o meu melhor para entreter você”.

When the Sun Goes Down, Arctic Monkeys – Destaque de um disco surpreendente, essa foi a melhor canção do ano passado. O tema pode até estar manjado em pleno ano de 2006, quando programas são agendados pela internet e sites exibem “test drives” das garotas. Mas os ingleses que são a sensação do momento o fizeram de forma tão displicente que fica impossível não se apaixonar pela música.

Vou Tirar Você Desse Lugar, Odair José – Clássico absoluto. Conta a velha história do homem que se apaixona por uma garota de programa e tenta convencê-la a mudar de vida, embora saiba que o passado pode estar sempre por perto. Somente Odair José poderia abordar a questão com tanta sensibilidade. Foi regravada por Paulo Miklos e Los Hermanos.

Damas da Noite, Wander Wildner – O punk brega traça um perfil não muito glamouroso da noite porto-alegrense, tendo como base a avenida Oswaldo Aranha, reduto de prostitutas, travestis e mau elementos. “Eu vejo mulheres, na chuva da noite, entregando seus corpos pra qualquer um, a velhos e gordos mais podres que a noite.” Uma homenagem sincera às mulheres que admiramos.

16 de outubro de 2008

O trovador na Oktober

Os fãs gaúchos de Zé Ramalho, que há algum tempo aguardam por um show no Rio Grande do Sul, têm um compromisso especial para este sábado. O compositor paraibano fará em Santa Cruz do Sul uma das apresentações mais concorridas da Oktoberfest.

O repertório de sua turnê atual é baseado em sucessos como Chão de Giz, Garoto de Aluguel e Admirável Gado Novo, além de regravações como O Trem das Sete (Raul Seixas).

No primeiro semestre, quem admira sua voz cavernosa e seu estilo trovador já havia ganhado um presente. O CD duplo Zé Ramalho da Paraíba, lançado pelo selo Discobertas, traz gravações do início de sua carreira, quando seu estado natal ainda estava incorporado ao nome artístico. Outra novidade, o CD/DVD Zé Ramalho canta Bob Dylan (Tá Tudo Mudando), está em fase final de gravação. Em mais de 30 anos de carreira, são 21 álbuns lançados.


Provável setlist:
1 - Mulher nova, bonita e carinhosa
2 - Beira-mar
3 - Mistérios da meia- noite
4 - Entre a serpente e a estrela
5 - A terceira lâmina
6 - Banquete dos signos
7 - Enternas ondas
8 - Avohai
9 - Vila do sossego
10 - Chão de giz
11 - Garoto de aluguel
12 - Admirável gado novo
13 - Batendo na porta do céu
14 - O trem das 7
15 - Trupizupe (não confirmada)
16 - Frevo mulher
17 - Sinônimos
18 - Vida de viajante

21 de novembro de 2008

Clássico experimental faz 40 anos

A capa era branca, sem desenhos ou foto dos integrantes. Não havia título, e o nome da banda aparecia escrito na mesma cor, em alto-relevo. Seria um tiro no pé para qualquer marqueteiro, mas foi assim que os Beatles fizeram um dos discos mais vendidos da história. No dia 22 de novembro de 1968 – 40 anos amanhã – era lançado o Álbum Branco, nome pelo qual ficou conhecido o disco mais experimental e ousado do Fab Four.

Sob clima de tensão, devido à presença constante de Yoko Ono no estúdio, os Beatles criaram uma obra-prima. As faixas (30 no total, em dois discos) vão da doçura de Blackbird à infantilidade de Ob-La-Di, Ob-La-Da, da fúria de Helter Skelter (espécie de pré-hardcore) ao folk de Rocky Raccoon, explorando a psicodelia em Dear Prudence e While My Guitar Gently Weeps e o rock and roll em Back in the USSR.

E tanto tempo após o seu lançamento, o novo quarentão continua esbanjando vitalidade. A primeira e histórica edição em vinil colocada à venda foi disponibilizada no site eBay pela bagatela de R$ 4 mil – pouco, se considerarmos que a genialidade não tem preço.

Tributo
O álbum branco ficou mais verde e amarelo com o último lançamento do selo Discobertas, do jornalista e pesquisador musical Marcelo Fróes. São 30 artistas brasileiros - um para cada faixa - interpretando os sucessos de John, Paul, George e Ringo. Alguns seguram a onda com classe, como Zé Ramalho (em Dear Prudence), Carmen Manfredini (Rocky Raccoon) e Cachorro Grande (Glass Onion), enquanto outros não saem da mesmice, principalmente Rodrigo Santos & George Israel (Back to the USSR) e Manfred (While While My Guitar Gently Weeps). Mas o destaque mesmo fica com os veteranos Márcio Greyck e Sylvinha Araújo, com Martha My Dear e Blackbird.

O segundo CD da trilogia deve ser lançado em breve com uma surpresa. A inédita canção Dehra Dun, regravada por Zé Ramalho, foi composta em 1968 por George Harrison, mas não chegou a fazer parte do álbum. Com isso, o compositor brasileiro torna-se o primeiro artista a registrá-la em disco.


The Beatles - Rocky Raccoon

18 de outubro de 2009

Paêbirú ganha documentário

Em meio ao sertão paraibano, no ano de 1598, soldados portugueses encontraram um “painel” de pedra – 24 metros de comprimento por quatro de altura – repleto de desenhos rupestres. Os traços ilustram animais, humanos e até constelações. Mais de 400 anos após a descoberta, a origem da Pedra do Ingá, como é chamada, ainda é uma incógnita. Alguns arqueólogos acreditam tratar-se de uma passagem das montanhas peruanas até o Oceano Atlântico. Na linguagem dos incas, o “caminho do sol” é conhecido como Paêbirú.

A lenda serviu de contexto para um dos últimos registros da psicodelia nacional. Lançado em 1974, o álbum duplo Paêbirú tornou-se tão mítico quanto sua fonte de inspiração. A prensagem única deu origem a 1,3 mil exemplares, dos quais mil perderam-se na enchente que assolou Recife em 1975. Cada uma das 300 cópias restantes chega a valer cerca de R$ 4 mil. Além disso, devido à pequena repercussão obtida na época, Paêbirú é rejeitado pelos seus dois autores – Lula Côrtes e Zé Ramalho.

Graças ao download gratuito – e ilegal –, Paêbirú conheceu o sucesso 30 anos após o seu lançamento. Isso explica a gravação de Nas Paredes da Pedra Encantada, documentário que revela como surgiu um dos álbuns mais cultuados da música brasileira. A bordo de uma Kombi, os diretores Cristiano Bastos e Leonardo Bomfim levaram Lula Côrtes de volta a Ingá, ponto de partida para o processo de criação do disco. Além de investigar a riqueza musical presente na obra, o filme detalha o imaginário particular do interior da Paraíba e o momento psicodélico da época.

Com recursos próprios, Bastos e Bomfim conseguiram refazer a trilha de Côrtes e Ramalho – que deu origem a Paêbirú –, o que resultou no que eles chamam de um road movie documental. A intenção dos produtores é lançar o filme em 2010, utilizando meios alternativos – como a divulgação em festivais de música. Para ouvir Paêbirú, no entanto, o único recurso continua sendo a internet. A não ser que você tenha R$ 4 mil disponíveis.


Veja abaixo o trailler do filme e o vídeo da música Nas Paredes da Pedra Encantada:



15 de agosto de 2008

Tributo a um clássico

Poucos discos estão cercados de tantas histórias como o álbum branco, famoso disco duplo dos Beatles lançado em 1968. As lendas, algumas verídicas e outras não, envolvem, as brigas entre os integrantes e até indícios da “morte” de Paul McCartney, cogitada por alguns fãs desde Sgt Peppers (1967). O baterista Ringo Starr, por exemplo, abandonou o grupo, que teve de substituí-lo em algumas faixas. Eric Clapton e Yoko Ono aparecem em participações especiais. O americano Charles Manson, por sua vez, baseou-se em algumas das canções para justificar uma série de assassinatos.

No ano em que completa 40 anos, o clássico da capa branca recebe as devidas homenagens. Um disco tributo, cuja idéia nasceu de discussões em comunidades do Orkut, será lançado no Brasil. As trinta faixas foram gravadas por nomes como Zé Ramalho, Cachorro Grande, Andréas Kisser e Pato Fu. O CD duplo chega ao mercado no final de agosto e é apenas o primeiro de uma trilogia que será lançada até novembro, mês de lançamento do álbum branco original. E o melhor: segundo o pesquisador musical Marcelo Fróes, que coordena a iniciativa, a intenção é disponibilizar o material na internet.

7 de maio de 2008

Chão de Giz: a origem

Apaixonado por uma mulher casada e mais velha, um jovem de 21 anos tranca-se no seu quarto por três dias consecutivos, sem comer e sem falar com ninguém, acompanhado apenas do violão. Esse é o enredo de uma das letras mais emblemáticas da música nacional.

Em 1972, Zé Ramalho compôs Chão de Giz sob o efeito de um amor platônico arrebatador. O compositor, que era garoto de programa, conheceu uma socialite (“fotografias recortadas de jornal...”) casada com um grande empresário paraibano (“é inútil pois existe um grão-vizir...”). Ao deixar o seu pequeno exílio, Zé mostrou a canção ao amigo Alceu Valença e entrou para a história. Seguem alguns trechos:

"Eu desço dessa solidão, espalho coisas sobre um chão de giz” – Zé costumava espalhar pelo chão objetos que lembravam o relacionamento amoroso. O chão de giz indicaria a fugacidade dessa relação.

"Fotografias recortadas de jornais de folhas amiúde" – O compositor também recortava todas as fotos da amada publicadas nos jornais.

"Há tantas violetas velhas sem um colibri" – Aqui ele destaca a “sorte” dela (violeta velha) em ter um colibri e rejeita-lo.

"Queria usar quem sabe uma camisa-de-força ou de vênus" – Ao mesmo tempo em que quer usar uma camisa-de-força para se manter longe, queria usar uma camisa-de-vênus, para traçar a madame.

Outros versos, como “meus vinte anos de boy”, ou “pra sempre fui acorrentado no seu calcanhar”, são auto-explicativos. Essa e outras interpretações estão detalhadas no site Análise de Letras.