16 de outubro de 2008

O trovador na Oktober

Os fãs gaúchos de Zé Ramalho, que há algum tempo aguardam por um show no Rio Grande do Sul, têm um compromisso especial para este sábado. O compositor paraibano fará em Santa Cruz do Sul uma das apresentações mais concorridas da Oktoberfest.

O repertório de sua turnê atual é baseado em sucessos como Chão de Giz, Garoto de Aluguel e Admirável Gado Novo, além de regravações como O Trem das Sete (Raul Seixas).

No primeiro semestre, quem admira sua voz cavernosa e seu estilo trovador já havia ganhado um presente. O CD duplo Zé Ramalho da Paraíba, lançado pelo selo Discobertas, traz gravações do início de sua carreira, quando seu estado natal ainda estava incorporado ao nome artístico. Outra novidade, o CD/DVD Zé Ramalho canta Bob Dylan (Tá Tudo Mudando), está em fase final de gravação. Em mais de 30 anos de carreira, são 21 álbuns lançados.


Provável setlist:
1 - Mulher nova, bonita e carinhosa
2 - Beira-mar
3 - Mistérios da meia- noite
4 - Entre a serpente e a estrela
5 - A terceira lâmina
6 - Banquete dos signos
7 - Enternas ondas
8 - Avohai
9 - Vila do sossego
10 - Chão de giz
11 - Garoto de aluguel
12 - Admirável gado novo
13 - Batendo na porta do céu
14 - O trem das 7
15 - Trupizupe (não confirmada)
16 - Frevo mulher
17 - Sinônimos
18 - Vida de viajante

11 de outubro de 2008

Cem anos do samba

Em uma das cenas mais tocantes já produzidas por um documentário, Cartola está sentado ao lado do pai – com quem não conversava há mais de 40 anos. Como se fosse um conhecido casual, Sebastião de Oliveira pede ao filho que cante um samba. Cartola, dedilhando o violão, entoa vagarosamente os versos de O Mundo é um Moinho, a música que compôs quando a filha saiu de casa.

A cena ilustra a essência do maior sambista da história. Afinal, a família, a favela, os amores não correspondidos, a boemia, a vida de garçom, porteiro, lavador de carros era a inspiração para o seu samba triste e cadenciado – embora mais triste tenha ficado o samba após a sua morte. Até hoje, no dia em que estaria completando 100 anos, Cartola segue reverenciado em diversas regravações que já incluíram nomes como Beth Carvalho, Nara Leão e Cazuza, entre outros. O Sol Nascerá, por exemplo, ganhou mais de 600 versões.

Batizado equivocadamente, graças a um erro do escrivão, Angenor de Oliveira nasceu no bairro do Catete, no Rio de Janeiro, no dia 11 de outubro de 1908. Tinha oito anos quando sua família se mudou para Laranjeiras e 11 quando passou a viver no morro da Mangueira, de onde não mais se afastaria. Desde menino participou das festas de rua, tocando cavaquinho no rancho Arrepiados e nos desfiles do Dia de Reis. Passando por diversas escolas, conseguiu terminar o curso primário, mas aos 15 anos, depois da morte da mãe, deixou a família e a escola, iniciando sua vida de boêmio.

Em 1932, fundou a Estação Primeira de Mangueira. Seu primeiro LP, no entanto, só seria lançado em 1974, meses antes de o compositor completar 66 anos de idade. Gravaria mais três discos até falecer, em 1980, num domingo de primavera – como hoje. Pouco, mas suficiente para torná-lo o maior nome do samba. A melhor definição dos últimos 100 anos é a frase de um velho amigo, Nélson Sargento: “Cartola não existiu, foi um sonho que a gente teve”.

Cartola e seu pai - O Mundo é um Moinho

10 de outubro de 2008

Camaleão maranhense

“Mal eu subo no palco, um maluco me grita de lá: ‘toca Raul’”, canta Zeca Baleiro em Toca Raul. “A vontade que me dá é de mandar o cara tomar naquele lugar”, prossegue o maranhense. O verso dá o tom do novo álbum do compositor, o recém-lançado O Coração do Homem-Bomba. Nele, Zeca liberta-se de alguns estereótipos e transforma clichê em boa música (o que, convenhamos, é melhor do que transformar boa música em clichê).

Se a rima algumas vezes é pobre (“Com Lolita eu só vivia na berita”, por exemplo), a fórmula transforma o seu novo CD em uma miscelânea de ritmos. Diferente do estilo acústico/lírico/romântico que o consagrou, O Coração do Homem-Bomba é tão agressivo quanto o título sugere. Seja na regravação da imperdível Alma Não Tem Cor (do Karnak) ou na animada Vai de Madureira, Zeca mostra uma faceta irreverente de sua obra. Não é de estranhar que um de seus planos seja um disco de música infantil.

Revelação no Vale

Vem de Arroio do Meio uma das boas surpresas da região. Inspirada no que há de melhor no rock gaúcho, a Charanga disponibilizou sua primeira música na internet. Com potencial para hit, Ofélia pode ser ouvida no site www.bandasgauchas.com.br/charanga

Formada por Luiz Antonio (vocais), Lucas (baixo), Thiago Sturmer (guitarra), Felipe (bateria) e Luís Henrique (teclado), a banda tem entre suas principais influências nomes como Beatles, Los Hermanos, Cachorro Grande, Led Zeppelin e Doors.

3 de outubro de 2008

Alarme falso

Uma notícia bombástica, publicada pelo tablóide inglês The Sun, na semana passada, deixou eufóricos os fãs do Led Zeppelin. A banda estaria prestes a se reunir para uma turnê com três membros da formação original: o vocalista Robert Plant, o guitarrista Jimmy Page e o baixista John Paul Jones. As baquetas ficariam a cargo de Jason Bonham, filho do lendário baterista John Bonham. Três dias depois, no entanto, Plant (ou Inri Cristo?) negou a informação. Segundo seus assessores, o cantor está na estrada com a cantora country Alisson Krauss e não pretende começar nova jornada em menos de dois anos após encerrar a atual.

Triste. Após a morte de Bonham, os outros três integrantes reuniram-se apenas três vezez, a última em dezembro do ano passado, em Londres. Estima-se que, na época, 20 milhões de pessoas tenham tentado comprar um ingresso para o show. Sob o nome Page & Plant, o vocalista e o guitarrista fizeram uma turnê bem sucedida comercialmente na década passada, embora muito longe da magia encontrada pelo quarteto nos anos 1970. Para quem sonhava em assistir o Led ao vivo, resta o consolo de que sua discografia pode ser encontrada em qualquer loja por um preço bem razoável.

30 de setembro de 2008

Gigante do hard em POA

Em uma seqüência de shows internacionais nunca antes vista, Porto Alegre recebe no dia 2 de outubro um ícone do hard rock. Os ingleses do The Cult, de volta à formação original, apresentarão na Capital clássicos da década de 1980 como She Sells Sanctuary e Revolution, além de músicas do último álbum, Born Into This (2007). Há mais de 20 anos, em pleno auge do movimento pós-punk, a banda (re)injetou no rock and roll os riffs explosivos de guitarra e as performances arrasadoras de palco, herdadas dos conterrâneos do Led Zeppelin.

A ligação com os anos 1960 e 1970, aliás, não fica restrita à sonoridade do The Cult. O vocalista, Ian Astbury, fez as vezes de Jim Morrison (morto em 1970) como vocalista do lendário The Doors para a gravação de um DVD e uma turnê. Mas o The Doors of 21st Century (novo nome do grupo) não foi adiante, e Astbury voltou a fazer o que sabe de melhor. Ainda bem.

Entre os outros shows marcados para Porto Alegre estão Bem Harper (30 de setembro), KT Tunstal (19 de outubro) e R.E.M. (6 de novembro).

17 de setembro de 2008

Um tapa na orelha

Anunciar uma volta às origens é uma ótima estratégia para quem anda longe dos holofotes. Mas no caso do Metallica, vai muito além do marketing. Com o recém-lançado Death Magnetic, o quarteto revive os tempos em que James Hatfield, Kirk Hammett, Lars Ulrich e Cliff Burton (substituído por Jason Newsted e, posteriormente, por Robert Trujillo) eram quatro moleques cabeludos na ensolarada Califórnia. Depois do experimentalismo de St. Anger (2003), a banda finalmente volta a mostrar o que tem de melhor. O resultado é um tapa na orelha do ouvinte – da primeira à última faixa.

As intenções do quarteto ficam bem claras com as primeiras notas da música de abertura, That Was Just Your Life. Outras, como Broken, Beat & Scarred, têm potencial para conquistar tanto o público rock and roll quando a galera do metal. O que não quer dizer que o Metallica perdeu sua essência – pelo contrário. Com Death Magnetic o grupo recupera a energia de sua produção pré-black álbum (1991). A revista Rolling Stone classificou o disco como equivalente à invasão da Rússia à Geórgia: um ato repentino de agressão de um gigante adormecido.

5 de setembro de 2008

A popstar cinqüentona vem aí

Depois de ficar famosa aos 20, virar ícone pop aos 30 e tornar-se a artista mais bem paga do mundo aos 40, Madona chegou aos 50 popular como nunca e surpreendente como sempre. Com a nova idade, recém-completada no dia 16 de agosto, o fenômeno da música continua provocando histeria por onde passa. No Brasil, onde uma legião de fãs aguarda com ansiedade o seu retorno após 15 anos, não é diferente. A confirmação de três shows, dois em São Paulo e um no Rio de Janeiro, provocou corre-corre atrás dos ingressos. Tanto que, três meses antes, restam entradas apenas para uma das apresentações.

A turnê Sticky & Sweet marca a volta de Madonna ao Brasil após mais de uma década. Na primeira vez, com The Girlie Show, uma multidão seguiu seus passos em São Paulo – alguns chegaram a passar a noite em frente do hotel onde estava hospedada. Durante a Confessions Tour, em 2006, os shows em solo brasileiro foram cancelados, adiando o seu retorno ao país por dois anos. Neste ano, o espetáculo servirá de divulgação para o seu 13º álbum de estúdio, Hard Candy. O show marcado para São Paulo, no dia 20 de dezembro, será o último da série.

Graças à inquietude artística e a sua capacidade de se reiventar, Madonna chegou aos 50 anos em evidência e bem longe da aposentadoria. Da sensualidade de Like a Virgin à rebeldia de Material Girl, passando pela polêmica de Like a Prayer (que provocou protestos da Igreja Católica), sua carreira é recheada de polêmicas e lançamento de tendências, assim como a sua vida pessoal. Aliando o talento ao seu grande senso de marketing, a cantora esbanja vigor – ao contrário de um contemporâneo famoso, o cantor Michael Jackson, que também virou cinqüentenário.

Popstar
Pop por excelência, Madonna está antenada com o rock, música eletrônica, dance, hip hop e retrô. Seu CD mais recente teve a produção do rapper Timbaland, o que reflete na sonoridade inspirada na música negra contemporânea. Com um título sugestido, Hard Candy (doce duro) ganhou edição especial com capa de couro e foi lançado até em vinil.

A poucos dias de dar início à nova turnê, que começou na Europa e passa pela América do Norte antes de chegar ao Brasil, Madonna revelou alguns detalhes sobre os shows. A apresentação é dividida em quatro partes, cada uma com uma influência. Estão incluídas a música folclórica romena, na parte mística, e a música festiva, durante a rave. Esta deverá ser a maior turnê já feita por uma mulher. A estimativa é de que os 55 shows previstos arrecadem US$ 250 milhões. O recorde atual, diga-se de passagem, pertence a Madonna.

3 de setembro de 2008

Para matar a saudade

Cinco mil pessoas cantam, em uníssono, músicas que jamais viraram hits nas grandes rádios. É uma espécie de devoção, que começa pelo figurino (all star é obrigatório) e termina no culto às personalidades de Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante, alma e cérebro do Los Hermanos. O cenário é o histórico show na Fundição Progresso (RJ), em 9 de junho do ano passado. Foi a última vez que Camelo, Amarante, Bruno Medina e Rodrigo Barba subiram ao palco juntos. Na semana passada, a apresentação chegou às lojas em forma de CD em DVD.

Foi o primeiro lançamento dos cariocas após a separação provisória. Nem o momento mais constrangedor, com o mega hit Anna Julia, tira o ânimo dos fãs – que cantam sozinhos os primeiros versos de O Vencedor. O coro segue até mesmo nas canções mais obscuras, como as que integram o álbum 4, mal sucedido comercialmente. É verdade que a banda já havia lançado um registro ao vivo (Cine Íris, 2005), mas o novo DVD funciona como forma de matar a saudade dos fãs. Menos mal que os hermanos, oficialmente, não pararam em definitivo. Apenas deram um tempo.

31 de agosto de 2008

Pedras rolando na sua TV

Pense em um gênio do cinema contemporâneo e na maior banda de rock do mundo. Agora imagine a sua sala como o palco de um mega show. Para quem não foi ao cinema ou não conseguiu baixar o filme, a espera acabou. Chegou às lojas na semana passada o DVD Shine a Light, que traz os Rolling Stones em plena forma (embora sexagenários) dirigidos pelo mestre Martin Scorsese.

A gravação registra a turnê do álbum A Bigger Bang (2006). Mas, felizmente, o repertório foi baseado na fase de maior criatividade da carreira – em especial o disco Exile on Main Street (1972), o melhor de todos. Petardos como Tumbling Dice e Loving Cup – essa última com participação de Jack White (Raconteurs e White Stripes) – explicam porque Mick Jagger, Keith Richards, Ron Wood e Charlie Watts permanecem no topo depois de 40 anos de estrada. O lado ruim da história é a ausência de faixas bônus na versão brasileira do DVD. Mas não há motivo para pânico, pois como diz Scorsese, “isto é rock and roll, não fique nervoso por nada”.

Loving Cup (com Jack White)

20 de agosto de 2008

Despedida duvidosa

O mundo da música já viu tantos retornos improváveis que fica difícil crer no fim do The Police. Na última sexta-feira, o trio inglês fez o seu último show para uma multidão no Hyde Park, em Londres. Queen, Doors, Stooges e Mutantes são exemplos de gigantes do rock que voltaram após longo período de hibernação criativa. E, se a performance dos velhinhos não trouxe nada de novo para o cenário musical, pelo menos contribuiu para apresentar o som às novas gerações. Além de encher os bolsos, claro. O Sex Pistols, em 1995, chamou a sua turnê de reunião de Lucro Fácil.

Mas o oportunismo não combina com o The Police. Sting (vocal e baixo), Andy Summers (guitarra) e Stewart Copeland (bateria) pensam que já cumpriram a sua missão. Foram duas reuniões oficiais: uma frustrada, em 1986, e outra em 2007. Na última, teve até apresentação no Rio de Janeiro, no final do ano passado. Em 30 anos de atividade, o trio conquistou gerações com a síntese perfeita entre reggae, new wave e pop. Um caso raro de banda que, com apenas cinco álbuns de estúdio, escreveu seu nome na história do rock.

15 de agosto de 2008

Tributo a um clássico

Poucos discos estão cercados de tantas histórias como o álbum branco, famoso disco duplo dos Beatles lançado em 1968. As lendas, algumas verídicas e outras não, envolvem, as brigas entre os integrantes e até indícios da “morte” de Paul McCartney, cogitada por alguns fãs desde Sgt Peppers (1967). O baterista Ringo Starr, por exemplo, abandonou o grupo, que teve de substituí-lo em algumas faixas. Eric Clapton e Yoko Ono aparecem em participações especiais. O americano Charles Manson, por sua vez, baseou-se em algumas das canções para justificar uma série de assassinatos.

No ano em que completa 40 anos, o clássico da capa branca recebe as devidas homenagens. Um disco tributo, cuja idéia nasceu de discussões em comunidades do Orkut, será lançado no Brasil. As trinta faixas foram gravadas por nomes como Zé Ramalho, Cachorro Grande, Andréas Kisser e Pato Fu. O CD duplo chega ao mercado no final de agosto e é apenas o primeiro de uma trilogia que será lançada até novembro, mês de lançamento do álbum branco original. E o melhor: segundo o pesquisador musical Marcelo Fróes, que coordena a iniciativa, a intenção é disponibilizar o material na internet.

5 de agosto de 2008

Dica: filho obscuro do gênio

O gosto pela música do Tom Zé nasceu com uma reedição do disco de estréia, o álbum de 1968, que ganhei no natal de não sei qual ano. A curiosidade, no entanto, sempre foi grande com relação ao famoso disco que trazia um ânus na capa (pelo menos era o que eu pensava), em formato de olho. Decidi então ir atrás do tal disco, Todos os Olhos, lançado em 1973. Encontrei-o numa reedição “dois em um” junto com um outro disco do qual eu não tinha ouvido falar, e por isso não tinha grandes expectativas. Mal sabia que estava subestimando uma grande obra.

Antes de inventar instrumentos e entrar de cara no experimentalismo, Tom Zé compôs sambas belíssimos ao violão. A romântica Happy End, que abre o disco, é um deleite. É prima-irmã de Se o Caso é Chorar, no mesmo estilo, um formato mais rústico (mas não menos empolgante) para quem está acostumado com as esquisitices inventivas do baiano. Ambas as músicas parecem lembrar um samba antigo, daqueles que talvez o artista ouvia ainda quando criança, na cidade de Irará, interior da Bahia. Até a letra remete à fossa dos cantores de antigamente. “Vestir toda minha dor no seu traje mais azul, restando aos meus olhos o dilema de rir ou chorar”, canta ele em Se o Caso é Chorar. Esta última, aliás, acabou virando a faixa-título quando o álbum foi rebatizado, em 1984, após ter sido relançado em LP.

Não quer dizer que, fazendo samba de raiz, Tom Zé tenha se furtado de inventar. No mesmo disco, o artista dá uma pista sobre a variedade rítmica e principalmente o experimentalismo que viria a permear sua obra até hoje. Dor e Dor e A Briga do Edifício Itália e do Hilton Hotel fazem parte deste time, quando a fossa dá lugar ao humor e à irreverência, como não poderia deixar de ser. Mas aí vem Senhor Cidadão, a sexta faixa, para confundir a cabeça do ouvinte. Citando versos desconexos do poema Cidade, de Augusto dos Anjos, Tom Zé diz coisas como: “senhor cidadão, eu e você temos coisas até parecidas, por exemplo nossos dentes, da mesma cor do mesmo barro, enquanto os meus guardam sorrisos, os teus não sabem senão morder”. E cada verso é repetido desordenadamente por um coral, como num transe. Ou numa procissão.

Terceiro disco da carreira do baiano, Se o Caso é Chorar está longe do tropicalismo da ensolarada estréia, repleta de marchinhas com referências psicodélicas. Também está longe (vá lá...) de outra obra-prima, o álbum Estudando o Samba, de 1976, cultuadíssimo no exterior. Mesmo não estando em nenhuma “lista de melhores”, Se o Caso é Chorar é um grande disco.

2 de agosto de 2008

Repetitivo como nunca

Quando XTRMNTR foi lançado, em 2000, o Primal Scream voltou a ocupar as listas de melhores do ano após um longo jejum. Meses depois, a mídia especializada considerava o disco datado e ultrapassado. No seu mais recente trabalho, Beautiful Future, Bobby Gillespie e companhia parecem ter levado a sério a idéia de soar repetitivo. Lançado na semana passada, o álbum copia fórmulas já esgotadas e chateia os fãs, ansiosos pelo groove que deu fama aos escoceses.

A coisa começa morna com Beautiful Future, esquenta em Can’t Go Back (o primeiro single), mas logo Uptown, cuja única palavra é o título, repetido à exaustão, põe tudo a perder. The Glory of Love lembra The Cure, mas também não empolga. Beautiful Summer comprova uma tendência do álbum, a de abusar da repetição. O groove de Zombie Man é a primeira lembrança do Primal Scream dos velhos tempos. A baladinha Over and Over mostra outro lampejo de inspiração da banda que nos anos 90 juntou rave e Rolling Stones no mesmo pacote. Necro Hex Blues remete (finalmente) aos melhores momentos de XTRMNTR (com participação de Josh Homme, do Queens of the Stone Age). Mas já é tarde.

O resultado final chega próximo ao razoável, muito pouco para uma banda que tem no currículo discos como Screamadelica (1991) e Give Out But Don’t Give Up (1994). Nem o toque brasileiro salva o álbum. Lovefoxxx, vocalista do Cansei de Ser Sexy, divide os vocais com Gillespie na pouco inspirada I Love to Hurt (You Love to Be Hurt). Mesmo os fãs mais ardorosos devem concordar que a carreira do Primal Scream é irregular. Mas, tivesse seguido o caminho do seu antecessor, Rock City Blues (2006) poderia pelo menos soar mais pop.

Entre as críticas que já circulam na rede desde o lançamento, há quem considere este o pior momento da discografia do Primal Scream. O próprio Gillespie, 46 anos, parece conformado. O mentor da banda classificou Beautiful Future como um “chiclete com lâminas de barbear”. Portanto, convém mastigar com cuidado.

1 de agosto de 2008

So Sad About Us

“Desculpas não valem nada quando o estrago está feito”, diz uma antiga música do The Who (So Sad About Us). O verso se aplica à fase atual da banda, em vias de ser dissolvida. A convivência entre o vocalista Roger Daltrey e o guitarrista Pete Townshend, que garantem nunca ter sido grandes amigos, tornou-se insustentável nos últimos anos. Prova disso é uma declaração recente de Pete: “Já não sou membro de uma banda chamada The Who. Sou o Pete Townshend e costumava estar numa banda chamada The Who, que hoje só existe nos vossos sonhos”.

Uma pena. Com Endless Wire (2006), último álbum de estúdio, Daltrey e Townshend deram uma mostra rara de talento e criatividade de astros em fim de carreira. Afinal, a maioria dos seus contemporâneos contenta-se em reviver o passado e colher os louros de outrora. O grupo inglês, surgido nos anos 1960, atravessou décadas fazendo rock no melhor estilo mod (subcultura londrina, derivada de modernismo) e influenciando bandas mundo afora. Ira! e Cachorro Grande, por exemplo, não existiriam sem eles. Mesmo que negue, os dois desafetos escreveram seu nome na história em petardos como We Won’t Get Fooled Again, My Generation e Baba O’Riley.