Mostrando postagens com marcador documentário. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador documentário. Mostrar todas as postagens

18 de outubro de 2009

Paêbirú ganha documentário

Em meio ao sertão paraibano, no ano de 1598, soldados portugueses encontraram um “painel” de pedra – 24 metros de comprimento por quatro de altura – repleto de desenhos rupestres. Os traços ilustram animais, humanos e até constelações. Mais de 400 anos após a descoberta, a origem da Pedra do Ingá, como é chamada, ainda é uma incógnita. Alguns arqueólogos acreditam tratar-se de uma passagem das montanhas peruanas até o Oceano Atlântico. Na linguagem dos incas, o “caminho do sol” é conhecido como Paêbirú.

A lenda serviu de contexto para um dos últimos registros da psicodelia nacional. Lançado em 1974, o álbum duplo Paêbirú tornou-se tão mítico quanto sua fonte de inspiração. A prensagem única deu origem a 1,3 mil exemplares, dos quais mil perderam-se na enchente que assolou Recife em 1975. Cada uma das 300 cópias restantes chega a valer cerca de R$ 4 mil. Além disso, devido à pequena repercussão obtida na época, Paêbirú é rejeitado pelos seus dois autores – Lula Côrtes e Zé Ramalho.

Graças ao download gratuito – e ilegal –, Paêbirú conheceu o sucesso 30 anos após o seu lançamento. Isso explica a gravação de Nas Paredes da Pedra Encantada, documentário que revela como surgiu um dos álbuns mais cultuados da música brasileira. A bordo de uma Kombi, os diretores Cristiano Bastos e Leonardo Bomfim levaram Lula Côrtes de volta a Ingá, ponto de partida para o processo de criação do disco. Além de investigar a riqueza musical presente na obra, o filme detalha o imaginário particular do interior da Paraíba e o momento psicodélico da época.

Com recursos próprios, Bastos e Bomfim conseguiram refazer a trilha de Côrtes e Ramalho – que deu origem a Paêbirú –, o que resultou no que eles chamam de um road movie documental. A intenção dos produtores é lançar o filme em 2010, utilizando meios alternativos – como a divulgação em festivais de música. Para ouvir Paêbirú, no entanto, o único recurso continua sendo a internet. A não ser que você tenha R$ 4 mil disponíveis.


Veja abaixo o trailler do filme e o vídeo da música Nas Paredes da Pedra Encantada:



20 de maio de 2009

Um tabu nos cinemas

Em conversa numa roda “politicamente muito correta”, Luiz Carlos Miéle sentenciou: “o maior cantor do Brasil foi o Simonal”. Houve um desconforto geral no grupo, que não concordou com a afirmação. “Então quem foi?”, quis saber Miéle. Ficou sem resposta.

A cena é descrita no documentário Simonal – Ninguém sabe o duro que dei, que acaba de chegar aos cinemas. Com depoimentos de artistas, amigos e familiares, o filme resgata a trajetória do cantor e apresentador de televisão que, após ter sido um fenômeno de popularidade nos anos 1960, envolveu-se em um dos casos mais rumorosos da música brasileira.

Enquanto a classe artística mobilizava-se contra a ditadura militar, Simonal foi acusado, em 1971, de ser informante do Dops. Tudo por conta de uma surra que o cantor teria mandado aplicar no seu contador, devido à suspeita de que ele o roubava. Ocorre que o “serviço” foi executado por agentes do temido departamento, um dos braços armados do governo militar.



O castigo pela surra foram três décadas no ostracismo e, como consequência, a derrota para o alcoolismo. Seus discos foram retirados de catálogo, e tanto os artistas quanto o público passaram a ignorá-lo. Nas palavras de Nelson Motta, Simonal “virou um tabu”. Ao seu velório, em 2000, pouca gente compareceu – entre eles os cantores Ronnie Von e Jair Rodrigues.

Em Ninguém sabe o duro que dei, no entanto, o objetivo não é criar um mártir. Há até um depoimento de Raphael Viviani, contador que foi o pivô do escândalo, que afirma ter sofrido torturas e choques elétricos na prisão. “A idéia não era nem atacar, nem defender. Era contar e ir achando a história na medida em que fôssemos fazendo”, justifica o diretor, Cláudio Manoel (do Casseta & Planeta).

O grande mérito de qualquer obra sobre Simonal é mexer em um terreno em que poucos se arriscam. Certo ou errado, o cantor foi uma das primeiras grandes expressões da música pop do Brasil. Ao lado de Carlos Imperial, criou a inconfundível pilantragem, estilo musical tipicamente carioca e até hoje imitado. Poucos, nas últimas quatro décadas, parecem ter se lembrado disto. Condenaram o homem, mas esqueceram de absolver o artista.

29 de maio de 2008

Relíquia inédita

Só no piratão. É o único jeito de obter uma cópia do documentário Novos Baianos F. C., gravado há 35 anos para uma emissora de TV alemã e que permanece inédito até hoje no Brasil. Em quase duas horas de filme, Moraes Moreira, Pepeu Gomes, Baby Consuelo e companhia são flagrados em ações cotidianas, jogando futebol, cuidando de crianças e, claro, fazendo música. É um retrato fiel do estilo riponga do qual os baianos eram um ícone no começo dos anos 70.

O filme rendeu ao diretor, Solano Ribeiro, uma premiação no Festival Europeu de Televisão, realizado na Áustria. O produtor é conhecido como o idealizador dos famosos festivais de música popular brasileira da TV Record. Entre outros artistas, lançou Elis Regina, Nara Leão, Chico Buarque, Tom Zé, Mutantes e Raul Seixas. Recentemente, o próprio Solano se mostrou chateado com o destino do filme, hoje encontrado apenas em cópias piratas e downloads pela internet. Visando mudar essa história, ele já chegou a cogitar novas exibições públicas da película em casas de cinema.

A interpretação de Mistério do Planeta, obra-prima do disco Acabou Chorare (1972), foi gravada no sítio Cantinho do Vovô, em Jacarepaguá. Com take único e sem cortes, o câmera brinca com o humor oscilante e a malandragem de Paulinho Boca de Cantor. Desempenho notável de Pepeu, na guitarra, e Moraes, no violão. Imperdível.